terça-feira, 30 de julho de 2013

CINE- ESPERANÇA

Minha mãe me deu um rio. Era dia do meu aniversário e ela não sabia o que me presentear. Fazia tempo que o mascate não passava naquele lugar esquecido. Se o mascate passasse a minha mãe compraria alguma rapadura ou bolachinha para me presentear. Mas, como não passava o mascate, minha mãe me deu o rio. Era o mesmo rio que passava atrás da nossa casa. Eu estimei o presente mais do que fosse uma rapadura do mascate. Meu irmão ficou sentido porque ele gostava do rio igual aos outros. A mãe prometeu que no aniversário do meu irmão ela iria dar uma árvore pra ele. Uma árvore que fosse coberta de pássaros. Eu bem ouvi a promessa que a mãe fizera para meu irmão. E achei legal. Os pássaros ficariam durante o dia nas margens do meu rio, e à  noite dormiriam na árvore do meu irmão. Meu irmão me provocava assim: minha árvore dava flores lindas em setembro e o seu rio nunca dá flores. Mas eu gozava que a árvore dele não dava peixe. E na verdade o que nos unia de verdade eram os banhos no rio nus entre pássaros! Nesse ponto nossa vida era um afago.

Manoel de Barros